Sabe onde fica o rio do esquecimento?

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07
Mai

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Sabe onde fica o rio do esquecimento?

Era uma vez um rio. Nascera, sem pressa, entre espessa prenhas, numa serra galega e, sem pressa, foi descendo de um vale ameno, bordado de salgueiros e veigas viridentes, avistado, débil pela distância, dos altos montes vestidos de pinheirais, e onde, nos cimos, se abrigavam o refúgio e a agressividade dos velhos castros. Era azul e liso. Não tinha nome, ainda. O povo que lhe usava as águas, para a rega, a pesca e a sede, era rude, selvagem, mal sabendo talhar na pedra o machado da lenha; a faca lascada para dilacerar a rês, destinada ao fulgor das brasas; a ponta de lança para a defesa e o ataque contra a violência que lhe roubava o gado e lhe raptava a mulher. Pela calma do entardecer, a tingir de vermelho os céus do mar próximo, o pastor, recoberto de peles de fera, conduzia os rebanhos até às areias finas das margens, a beberem frescura na limpidez do rio, longa, longamente… Mas esta paz de paraíso não tardou a ser perturbada pelo passo duro e cadenciado do soldado estranho.

A Roma imperial enviara as suas legiões aos campos agrestes da Ibéria, vencendo batalhas, edificando estradas lajeadas, as pontes, os aquedutos, as muralhas guerreiras, os templos para os deuses, os anfiteatros e as arenas para os prazeres da arte e do desporto. Elas invadiam, implacáveis, o bucolismo da paisagem doce, empunhando a agudeza da lança e o escudo de coiro lavrado, entre o arruído dos pesados carroções e o tropear febril dos cavalos. E, um dia, eis que o arreganho destas legiões chega junto à margem do sul do rio de que vos falo, com os seus pendões rubros, constelados de águias, sacudidos por uma brisa mansa. E estaca, rendido, deslumbrado! No arrebatamento da visão, toda a soldadesca excitada supõe estar diante daquele rio Lethes, o Rio do Esquecimento, um rio sem par de que lhe falavam as lendas e as narrativas do seu país. E do Esquecimento, porquê? Porque se dizia que quem ousasse atravessá-lo, enfeitiçado pela sua beleza, logo esqueceria a pátria, a família, o próprio nome. Tomado de pavor pelos avisos desta condenação, todo o exército se recusou a mergulhar, naquelas águas encantadas, a poeira das sandálias, obrigadas a calcar o vau da passagem que o levaria, sem perigo à margem oposta. Em vão os comandantes davam ordem para avançar. Em vão o chefe supremo, Décio Júnio Bruto, lhe ameaçou a desobediência com a prisão e a morte. Ninguém se movia dali, paralisado pela emoção e pelo medo. Mas Décio Júnio Bruto teve uma decisão feliz. Apeando-se do seu ginete, atravessou, lento, as águas feiticeiras, com o escudo a proteger-lhe a cabeça, a curta espada desembainhada na firmeza da mão. E, mal atingiu o areal da margem direita, vencendo o rumorejar do arvoredo, o gorjeio mavioso dos rouxinóis, começou a bradar pelos seus homens, hirtos, perfilados à sua frente, como estatuas estáticas, preferindo, de cada um deles, o nome exacto sem revelar esforço de memória. Só desta forma convenceu os seus soldados que, afinal, o rio que lhes corria aos pés não era o Lethes do esquecimento, apesar da sua beleza, apesar do seu fascínio. Então, todo o exército atravessou, sem hesitar as águas claras e brandas, e seguiu para novas paisagens, novos montes e vales, novos rios, embora nenhum deles tão deslumbrante. E aquele rio, que, por um momento de paixão e temor, fora baptizado de Lethes, continuou a correr, sem pressa, até ao desenlace da foz. O rio tem, hoje, o nome de Lima. E, tal com outrora, ei-lo que fascina, pela sua beleza, quem dele se abeira, lhe escuta o leve fluir, já ladeado agora pela riqueza e nobreza dos santuários milagreiros; pelos escuros solares armoriados e a brancura alegre dos casais; pelo bulício de antigas povoações com as suas elegantes pontes arqueadas sobre barcos pesqueiros; e, por todo o horizonte, as torres, os pelourinhos, as cruzes… Rio do Esquecimento? Não, Rio da Lembrança. Lembrança viva destas terras amoráveis, por onde desliza e que parece beijar.

 

Fonte: Alto Minho

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